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DE BOLHA EM BOLHA
É tudo muito simples: em 2003/2004, o mundo da opulência se descobriu nos dois lados do Atlântico Norte sentado no maior estoque de liquidez financeira da história do capitalismo vencedor.
Ou seja: trilhões de dólares em bancos e fundos sem aplicação em produção ou consumo. Quando isso ocorre, os bancos saem oferecendo crédito a juros de banana - melhor do que o dinheiro parado com rendimento zero, mas pagando juros a cada poupador ou investidor.
No caso americano, as duas grades agências paraestatais de crédito habitacional, lastreado em hipotecas, espécie de BNH em dose dupla, saíram às ruas procurando e encontrando antigos mutuários barrados do mercado por obra e desgraça dos respectivos históricos de inadimplência em banco ou de calote em cartório.
Nada menos de 4,5 milhões de famílias voltaram ao Planeta Terra com direito a casa ou apartamento hipotecado. Com o detalhe: em prazos de 20, de 30 ou mesmo de 40 anos, mas com juros de 15% ou 16% ao ano, duas vezes e meia acima dos juros de 6% ao ano das hipotecas honradas, de baixo risco.
A lógica desse negócio de altíssimo risco não está no espírito de caridade do sistema. Bem ao contrário, está na gula ou na ganância compulsiva do próprio sistema.
Seguinte: se a hipoteca é de alto risco, chamada até de subprime, a ordem é cobrar elevado prêmio de risco e repartir esse prêmio com outros bancos e seguradoras no mercado secundário de securitização de recebíveis e creditícios.
Assim, com todo mundo compartilhando grandes ganhos sobre grandes riscos, dentro e fora dos Estados Unidos, cada um dos elos dessa cadeira da insanidade sentiu-se seguro - tal como a segurança dos grandes lucros sobre os grandes riscos.
Ora, cobrando duas vezes e meia a mais de quem menos tem ou nada pode, os riscos atropelam os ganhos e a corrente da felicidade acaba rompendo mais cedo ou mais tarde. Rompeu em agosto do ano passado.
Quem perdeu com isso? Quem apostou dinheiro nisso. Bancos, seguradoras e fundos de investimentos. Quem vai ter de bancar esse prejuízo em cadeia, em dominó? Os bancos, as seguradoras e os fundos, com sobras para os respectivos poupadores e investidores.
E quem é, no fundo, o grande responsável por isso? As autoridades monetárias, que não fiscalizam o mercado regido por uma regulação porosa e permissiva.
Gandaia rola solta e quando a gandaia quebra a cara ou o cofre, os bancos centrais e os Tesouros nacionais têm mesmo é de socorrer o sistema desastrado e desastroso - que, numa quebradeira em cascata, poderia jogar a economia real no fundo do abismo de uma depressão sem tamanho e sem fronteira.
É mais um estouro de bolha. E estouro de bolha só é tragédia para quem está dentro dela. Ou como diria o nosso Layr Ribeiro, felicitólogo brasileiro: "Quando é grande demais a confusão é porque se está bem próximo da solução". (Republicado, com correção dos prazos das hipotecas)
(15/09/2008)
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